sábado, 23 de janeiro de 2010

A MULHER NATUREZA E EMANCIPAÇÃO






INTRODUÇÃO

Esta temática abraça a mulher desde o seu primitivismo, onde a caracterização e reconhecimento dos valores da sensibilidade se faziam apenas pelo instinto animal, sem existência de sentimentos reais, apenas o rudimentarismo e busca inter- relacional se fazia sentir pela brutalidade, digamos que era pelo poder do mais forte.
Os tempos mudaram, e claro nada fica em estado estacionário, tudo evolui, e da mulher submissa, pouco activa, apenas espectro de objecto humano , eclodiram imensas mudanças, umas positivas outras negativas, mas sempre no âmbito do reconhecimento dos valores da vida e sensibilidade feminina .
Dona de casa, partilha sexual, elo de reprodução, mito dos sonhos maternais, porem continuamente sendo sempre objectora de segundo plano para aqueles que déspotas, se fizeram sempre presentes pelo quantificar de que quem manda é o homem!
Os pergaminhos rigorosos da Igreja, fizeram delas tementes pela vida, porque muitas foram queimadas, ou enforcadas, sem sequer terem o que se apontar, mas porque dava jeito ao dos inabaláveis intocáveis, desde a busca de filhos barões e quando não se conseguiam, os hereges tomavam de imediato um jeito de aniquilar tal infortúnio na mente doente dos fidalgos, temos muitos relatos na hierarquia monárquica.
Vamos pois falar da história dum ser que tem uma enorme importância nos valores da vida e no crescendo educacional dos seguidores da nova era vivente, em nome de nossos filhos, netos …..
Menina, filha, mulher, Mãe, Avó…sensibilidade generosa….muito tem para nos dar e com os anos passados, tudo se mudou, a menina cresceu, tornou-se Mãe, mas não submissa, os seus direitos mudaram, o tempo revolucionou todo o envolvimento e postura do sexo oposto, do seu feminismo, a emancipação alterou todos os dados, mas será que tudo está feito, que realmente foi positivo!?
A Família valorizou-se? A educação e os valores morais cresceram? Todos os direitos lhe foram concedidos?!
A Sociedade, o meio, o ambiente, as possibilidades materiais, trouxeram uma mudança radical no relacionamento humano e nos valores do que é a FAMILIA em concreto.
A mulher, a beleza interior e exterior será que é mais feliz?!
Sou pelos direitos da mulher, respeito a sua grandeza, como Mãe , filha, menina e mulher.
O que mudou?! Tornou-se um puzzle, que necessita ser reconstruído!....

Historia da Mulher e o Malleus Maleficarum

A importância do Malleus para ser compreendida é preciso uma visão mínima da história da mulher no interior da história humana.

A maioria dos antropólogos, pensa que os seres humanos habitam este planeta há mais de dois milhões de anos. Em parte deste tempo viviam das colheitas de frutos e caça aos peque¬nos animais. não havia necessidade de força física para a sobrevivência, e nelas as mulheres possuíam um lugar central. Ainda hoje existem Povos com reminiscência dessa postura, grupos Mahoris (Indonésia), pigmeus e bosquímanos (África Central). Nesses grupos, a mulher ainda é considerada um ser sagrado, devido à reprodução ajudando na fertilidade da terra e dos animais. Nesses meios tribais, o princípio masculino e feminino governam o meio juntos. O trabalho é dividido entre os sexos, e há igualdade . A vida é pacifica e paradisíaca
Quando começa a necessidade da caça a animais de maior porte, a mulher até aí ser sagrado, que possuidora do privilégio dado pelos deuses de reproduzir a espécie, começou a criar o sentimento de marginalização e daí a inveja das mulheres. Essa primitiva inveja do útero? No antepassado recente transformou-se na inveja do pénis? Isto na fase das culturas patriarcais .

Hera, a Grande Deusa

"O medo de não ser páreo para a maturidade feminina é a principal causa da dominação e sujeição patriarcal da mulher."

A inveja do útero deu origem a dois ritos universalmente encontrados nestas sociedades . O primeiro é o fenómeno da couvade, em que a mulher começa a trabalhar dois dias depois de dar à luz e o homem ficava de guarda com o recém-nascido, recebendo visitas e presentes... O segundo é a iniciação dos homens. Na adolescência, a mulher tem sinais exteriores que marcam a sua entrada no mundo adulto. A menstruação a torna apta à maternidade e representa um novo patamar em sua vida, porém os adolescentes homens como não possuíam esse sinal tão óbvio, são arrancados pelos homens às suas mães, para serem iniciados na casa dos homens. Em quase todas essas iniciações, o ritual é semelhante: é a imitação cerimonial do parto com objectos de madeira e instrumentos musicais. E nenhuma mulher ou criança podia aproximar-se da casa dos homens, pois eram punidos com pena de morte. Desse dia em diante o homem podia parir, ritualmente e, portanto, tomar seu lugar na cadeia das gerações...

Em relação à mulher, que possuidora do poder biológico, o homem foi desenvolvendo-se culturalmente à medida que a tecnologia foi avançando. O poder nestas sociedades equilibrava-se, mas diferente das culturas patriarcais. Essas culturas primitivas para sobreviverem cooperavam umas com as outras devido às condições hostis, e a liderança era mútua, sendo as relações entre homens e mulheres fluidas e generosas.


Nos grupos matricêntricos, as formas de associação entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão do poder nem a da heran¬ça, por isso a liberdade em termos sexuais era maior.
A mudança começa a dar-se pela escassez de alimentos.
E aí começa a instalar-se a supremacia masculina e a competitividade entre os grupos na busca de novos territórios. Agora, para sobreviver, as sociedades têm de competir entre si por um alimento escasso. As guerras se tornam constantes e passam a ser mistificadas. Os homens mais valentes passam a ser heróis. Começa a romper-se a harmonia que ligava a espécie humana à natureza. Mas ainda não se instala definitivamente a lei do mais forte. O homem ainda desconhecia a sua função reprodutora e crê que a mulher fica grávida dos deuses. Dessa forma ela ainda conserva poder de decisão. Nas culturas que vivem da caça, já existia esta distribuição social e sexual, mas não é completa como nas sociedades que se lhes seguem.

E no decorrer do período Neolítico que, o homem começa a dominar a sua função biológica reprodutora, e, podendo controlá-la, começa a controlar a sexualidade feminina.
Aparece então o casamento como o conhecemos hoje, em que a mulher é propriedade do homem e a herança se transmite através da descendência masculina. Já acontecia assim, por exemplo, nas Sociedades pastoris descritas na Bíblia. Nessa época, o homem já tinha aprendido a fundir metais.
Hoje existe entre consenso entre os antropólogos de que os primeiros hu¬manos a descobrir os ciclos da natureza foram as mulheres, porque podiam compará-los com o ciclo do próprio corpo. Mulheres também devem ter sido as primeiras plantadoras e as primeiras ceramistas, mas foram os homens que, a partir da invenção do arado, sistematizaram as actividades agrícolas, iniciando uma nova era, a era agrária, e com ela a história em que vivemos hoje.

Nasce o sedentarismo. Começam a dividir a terra e for¬mam as primeiras plantações. Estabelecem-se as primeiras aldeias, depois as cidades, as cidades-estado, os primeiros Estados e os Impérios, no sentido antigo do termo. As sociedades, então, se tor¬nam patriarcais, isto é, os portadores dos valores e da sua transmissão são os homens. Já não são mais os princípios feminino e masculino que governam juntos o mundo, mas, sim, a lei do mais forte. A comi¬da era primeiro para o dono da terra, sua família, seus escravos e seus soldados. Até ser escravo era privilégio.


Nesse contexto, quanto mais filhos, mais soldados e mais mão-de-obra barata para arar a terra. As mulheres tinham a sua sexualidade rigidamente controlada pelos homens. O casamento era monogâmico e a mulher era obrigada a sair virgem das mãos do pai para as mãos do marido. Qualquer ruptura desta norma podia significar a mor¬te. Assim também o adultério: um filho de outro

homem viria ameaçar a transmissão da herança que se fazia através da descendência da mulher. A mulher fica, então, reduzida ao âmbito doméstico. Perde qualquer capacidade de decisão no domínio público, que fica inteira¬mente reservado ao homem. A dicotomia entre o privado e o público torna-se, então, a origem da dependência económica da mulher, e esta dependência, por sua vez, gera, no decorrer das gerações, uma sub¬missão psicológica que durava antes da era feminista.


O recomeço da mudança Marilyn French, uma das maiores pensadoras feministas americanas, começa o seu livro Beyond Power (Summit Books, Nova York, 1985). E não é sem razão, pois podemos retraçar os caminhos da espécie atra¬vés da sucessão dos seus mitos.
Na primeira etapa, o mundo é criado por uma deusa mãe sem au¬xílio de ninguém.
Na segunda, ele é criado por um deus andrógino ou um casal criador.
Na terceira, um Deus macho ou toma o poder da Deusa ou cria o Mundo sobre o corpo da deusa primordial.
Finalmente, na quarta etapa, um Deus macho cria o mundo sozinho.

Essas quatro etapas que se sucedem também cronologicamente são testemunhas eternas da transição da etapa matricêntrica da humanidade para sua fase patriarcal, e é esta sucessão que dá veracidade à frase já citada de Marilyn French.

A partir do segundo milénio a.C., contudo, raramente se registaram mitos em que a divindade primária seja mulher. Em muitos deles, estas são substituídas por um deus macho que cria o mundo a partir de si mesmo, tais como os mitos persa, meda e, principalmente e acima de todos, o nosso mito cristão, que é o que será enfocado aqui.

Quando o homem começa a dominar a natureza, ele começa a se separar dessa mesma natureza em que até então vivia imerso.

O trabalho é penoso, necessita agora de poder central que imponha controles mais rígidos e punição para a transgressão. É preciso usar a coerção e a violência para que os homens sejam obrigados a trabalhar, e essa coerção é localizada no corpo, na repressão da sexualidade e do prazer. Por isso o pecado original, a culpa máxima, na Bíblia, é colocado no acto sexual (é assim que, desde milénios, popular¬mente se interpreta a transgressão dos primeiros humanos).

E por isso que a árvore do conhecimento é também a árvore do bem e do mal. O progresso do conhecimento gera o trabalho e por isso o corpo tem de ser amaldiçoado, porque o trabalho é bom. Mas é interessante notar que o homem só consegue conhecimento do bem e do mal transgredindo a lei do Pai. O sexo (o prazer) doravante é mau e, portanto, proibido. Praticá-lo é transgredir a lei. Ele é, portanto, limitado apenas às funções procriativas, e mesmo assim é uma culpa.

Daí a divisão entre sexo e afecto, entre corpo e alma, apanágio das civilizações agrárias e fonte de

todas as divisões e fragmentações do homem e da mulher, da razão e da emoção, das classes...

Uma vez adquirido o conhecimento, o homem tem que sofrer, O trabalho o escraviza. E por isso o homem escraviza a mulher. A relação homem – mulher - natureza não é mais de integração e, sim, de dominação. O desejo dominante agora é o do homem. O desejo da mulher será para sempre carência, e é esta paixão que será o seu castigo. Daí em diante, ela será definida por sua sexualidade, e o homem, pelo seu trabalho. Assim, aquilo que se verifica no decorrer dos séculos, isto é, a transição das culturas para a civilização agrária mais avançada, é relembrado simbolicamente na vida de cada um dos homens do mundo de hoje. Mas duas observações devem ser feitas. A primeira é que o pivô das duas tragédias, a individual e a colectiva, é a mulher; e a segunda, que o conhecimento condenado não é o conhecimento dissociado e abstracto que daí por diante será o conhecimento dominante, mas sim o entendimento do bem e do mal, que vem da experiência concreta do prazer e da sexualidade, a noção totalizante que integra inteligência e emoção, corpo e alma, enfim, aquele conhecimento que é, especificamente na cultura patriarcal, o conhecimento feminino por excelência.

Freud dizia que a natureza tinha sido madrasta para a mulher por¬que ela não era capaz de simbolizar tão perfeitamente como o homem. De fato, para podermos entender a atitude que daí por diante caracterizará a cultura patriarcal, é preciso analisar a maneira como as ciências psicológicas mais actuais apontam para uma estrutura psíquica feminina bem diferente da masculina.
Desta fase em diante, poder, competitividade, conhecimento, controle, manipulação, abstracção e violência vem juntos. O amor, a integração com o meio ambiente e com as próprias emoções são os elementos mais desestabilizadores da ordem vigente. Por isso é preciso precaver-se de todas as maneiras contra a mulher, impedi-la de inter¬ferir nos processos decisórios, fazer com que ela interiorize uma ideologia que a convença de sua própria inferioridade em relação ao homem.

Por isso não espanta que segundo a Bíblia encontremos o primeiro indício desta desigualdade entre homens e mulheres. Quando Deus cria o homem, “Ele o cria só e apenas depois tira a companheira da costela deste. Em outras palavras: o primeiro homem dá à luz (pare) a primei¬ra mulher. “ Não aceito este conceito, mas apenas o uso para grifar as palavras do pensamento humano daquela era . Esse fenómeno psicológico de deslocamento é um mecanismo de defesa conhecido por todos aqueles que lidam com a psiquismo humano e serve para revelar suprimindo.
Já não é o homem que inveja a mulher. Agora é a mulher e se torna dependente dele. Carente, vulnerável, seu desejo é o centro da sua punição. Ela passa a ver-se com os olhos do homem, isto é, sua identidade reflecte-se no outro. O homem é autónomo e a mulher é reflexa. Daqui em diante, como o pobre se vê com os olhos do rico, a mulher se vê pelo homem.•
Apenas nos tempos modernos está se tenta deslocar o pecado da sexualidade para o poder. Isto é, até hoje não só o homem como as classes dominantes tiveram seu status sacralizado porque a mulher e a sexualidade foram penalizadas como causa máxima da de¬gradação humana.

No Oriente Médio, as grandes culturas patriarcais iam se sucedendo. Na Grécia, o status da mulher foi extremamente degradado. O homossexualismo era prática comum entre os homens e as mulheres ficavam exclusivamente reduzidas às suas funções de mãe, prostituta ou cortesã. Em Roma, embora durante certo período tivessem bastante liberdade sexual, jamais chegaram a ter po¬der de decisão no Império. Quando o Cristianismo se torna a religião oficial dos romanos no século IV, tem início a Idade Média. Algo novo acontece. E aqui nos deteremos porque é o período que mais nos interessa.

A partir do terceiro ao décimo séculos, existe um período em que o Cristianismo se sedimenta entre as tribos bárbaras da Europa. Nesse período de conflito de valores, é muito confusa a situação da mulher. Porém, ela tende a ocupar lugar de destaque no mundo das decisões, porque os homens se ausentavam muito e morriam nos períodos de guerra. Em poucas palavras: as mulheres eram jogadas para o domínio público quando havia escassez de homens e voltavam para o domínio privado quando os homens reassumiam o seu lugar na cultura.

Na alta Idade Média, a condição das mulheres floresce. Elas têm acesso às artes, às ciências, à literatura. Uma monja, por exemplo, Hrosvitha de Gandersheim, foi o único poeta da Europa durante cinco séculos. Isso acontece durante as cruzadas, período em que não só a Igreja alcança seu maior poder temporal como, também, o mundo se prepara para as grandes transformações que viriam séculos depois, com a Renascença.

E é logo depois dessa época, no período que vai do fim do século XIV até meados do século XVIII que aconteceu o fenómeno generalizado em toda a Europa: a repressão sistemática do feminino. Estamos nos referindo aos quatro séculos de caça às bruxas.•
Deirdre English e Barbara Ehrenreich, em seu livro Witches, Nurses and Midwives (The Feminist Press, 1973), nos dão estatísticas aterradoras do que foi a queima de mulheres feiticeiras em fogueiras durante esses quatro séculos. A extensão da caça às bruxas é espantosa. No fim do século XV e no começo do século XVI, houve milhares e milhares de execuções - usualmente eram queimadas vivas na fogueira - na Alemanha, na Itália e em outros Países. A partir de meados do século XVI, o terror se espalhou por toda a Europa, Muitos escritores estimaram que o número total de mulheres executadas subia à casa dos milhões, e as mulheres constituíam 80%!

Desde a mais remota antiguidade, as mulheres eram as curadoras populares, as parteiras, enfim, detinham saber próprio, que lhes era transmitido de geração em geração. Em muitas tribos primitivas eram elas as xamãs. Na Idade Média, seu saber se intensifica e aprofunda. As mulheres camponesas pobres não tinham como cuidar da saúde, a não ser com outras mulheres tão camponesas e tão pobres quanto elas. Elas (as curadoras) eram as cultivadoras ancestrais das ervas que devolviam a saúde, e eram também as melhores anatomistas do seu tempo. Eram as parteiras que viajavam de casa em casa, de aldeia em aldeia, e as médicas populares para todas as doenças.

Mais tarde elas vieram a representar uma ameaça. Em primeiro lugar, ao poder médico, que vinha tomando corpo através das universidades no interior do sistema feudal. Em segundo, porque formavam organizações pontuais (comunidades) que, ao se juntarem, formavam vastas confrarias, as quais trocavam entre si os segredos da cura do corpo e muitas vezes da alma. Mais tarde, ainda, essas mulheres vieram a participar das revoltas camponesas que precederam a centralização dos feudos, os quais, posteriormente, dariam origem às futuras Nações.
O poder disperso e frouxo do sistema feudal para sobreviver é obrigado, a partir do fim do século XIII, a centralizar, a hierarquizar e a se organizar com métodos políticos e ideológicos mais modernos..

A religião católica e, mais tarde, a protestante contribuem de maneira decisiva para essa centralização do poder. E o fizeram através dos tribunais da Inquisição que varreram a Europa de norte a sul, leste e oeste, torturando e assassinando em massa aqueles que eram julga¬dos heréticos ou bruxos.•
Este expurgo visava recolocar dentro de regras de comporta¬mento dominante as massas camponesas submetidas muitas vezes aos mais ferozes excessos dos seus senhores, expostas à fome, à peste e à guerra e que se rebelavam. E principalmente as mulheres.

Era essencial para o sistema capitalista que estava sendo forjado no seio mesmo do feudalismo um controle estrito sobre o corpo e a sexualidade, conforme constata a obra de Michel Foucault, História da Sexualidade. Começa a se construir ali o corpo dócil do futuro trabalhador que vai ser alienado do seu trabalho e não se rebelará. A partir do século XVII, os controles atingem profundidade e obsessividade tais que 05 menores, os mínimos detalhes e gestos são normalizados.•
Todos, homens e mulheres, passam a ser, então, os próprios controladores de si mesmos a partir do mais íntimo de suas mentes. E assim que se instala o puritanismo, do qual se origina, segundo Tawnwy e Max Weber, o capitalismo avançado anglo-saxão. Mas até chegar a esse ponto foi preciso usar de muita violência. Até meados da Idade Média, as regras morais do Cristianismo ainda não tinham penetrado a fundo nas massas populares. Ainda existiam muitos núcleos de pa¬ganismo e, mesmo entre os cristãos, os controles eram frouxos.
As regras convencionais só eram válidas para as mulheres e homens das classes dominantes através dos quais se transmitiam o poder e a herança. Assim, os quatro séculos de perseguição às bruxas e aos heréticos nada tinham de histeria colectiva, mas, ao contrário, foram uma perseguição muito bem calculada e planeada pelas classes domi¬nantes, para chegar a maior centralização e poder.

Num mundo teocrático, a transgressão da fé era também transgressão política. Mais ainda, a transgressão sexual que grassava solta entre as massas populares. Assim, os inquisidores tiveram a sabedoria de ligar a transgressão sexual à transgressão da fé. E punir as mulheres por tudo isso. As grandes teses que permitiram esse expurgo do femi¬nino e que são as teses centrais do Malleus Maleficarum são as seguintes:

1) O demónio, com a permissão de Deus, procura fazer o máximo de mal aos homens a fim de apropriar-se do maior número possível de almas.•
2) E este mal é feito prioritariamente através do corpo, único ?lugar? onde o demónio pode entrar, pois ?o espírito [do homem] é governa¬do por Deus, a vontade por um anjo e o corpo pelas estrelas? (Parte 1, Questão 1). E porque as estrelas são inferiores aos espíritos e o demónio é um espírito superior, só lhe resta o corpo para dominar.
3) E este domínio lhe vem através do controle e da manipulação dos actos sexuais. Pela sexualidade o demónio pode apropriar-se do corpo e da alma dos homens. Foi pela sexualidade que o primeiro homem pecou e, portanto, a sexualidade é o ponto mais vulnerável de todos os homens.
4) E como as mulheres estão essencialmente ligadas à sexualidade, elas se tornam as agentes por excelência do demónio (as feiticeiras). E as mulheres têm mais conivência com o demónio, porque Eva nasceu de uma costela torta de Adão, portanto nenhuma mulher pode ser recta! (1,6).
5) A primeira e maior característica, aquela que dá todo o poder às feiticeiras, é copular com o demónio. Satã é, portanto, o senhor do prazer.

6) Uma vez obtida a intimidade com o demónio, as feiticeiras são capazes de desencadear todos os males, especialmente a impotência masculina, a impossibilidade de livrar-se de paixões desordenadas, abortos, oferendas de crianças a Satanás, estrago das colheitas, doenças nos animais etc.
7) E esses pecados eram mais hediondos ao que os próprios pecados de Lúcifer quando da rebelião dos anjos e dos primeiros pais por ocasião da queda, porque agora as bruxas pecam contra Deus e o Redentor (Cristo), e portanto este crime é imperdoável e por isso só pode ser resgatado com a tortura e a morte.

Durante três séculos o Malleus foi a Bíblia dos Inquisidores e esteve na banca de todos os julgamentos. Quando cessou a caça às bruxas, no século XVIII, houve grande transformação na condição feminina. A sexualidade se normaliza e as mulheres se tornam frígidas, pois orgasmo era coisa do diabo e, portanto, passível de punição. Reduzem se exclusivamente ao âmbito doméstico, pois sua ambição também era passível de castigo. O saber feminino popular cai na clandestinidade, quando não é assimilado como próprio pelo poder médico masculino já solidificado. As mulheres não têm mais acesso ao estudo como na Idade Média e passam a transmitir voluntariamente a seus filhos valores patriarcais já então totalmente preparados por elas.

É com a caça às bruxas que se equilibra o comportamento de homens e mulheres europeus, tanto na área pública como no domínio do privado. E assim se passam os séculos.

A sociedade de classes que já está construída nos fins do século XVIII é composta de trabalhadores dóceis que não questionam o sistema. As Bruxas do Século XX

Agora, mais de dois séculos após o término da caça às bruxas, é que podemos ter uma noção das suas dimensões. Neste final de século e de milénio, o que se nos apresenta como avaliação da sociedade industrial. Dois terços da humanidade passam fome para o terço restante super-alimentar-se; além disto há a possibilidade concreta da destruição instantânea do planeta pelo arsenal nuclear já colocado e, principalmente, a destruição lenta mas contínua do meio ambiente, já chegando ao ponto do não-retorno. A aceleração tecnológica mostra-se, portanto, muito mais louca dos inquisidores.

Ainda neste fim de século outro fenómeno está acontecendo, na mesma jovem rompem-se dois tabus que causaram a morte das feiticeiras: a inserção no mundo público e a procura do prazer sem repressão. A mulher jovem hoje liberta-se porque o controle da sexualidade e a reclusão ao domínio privado formam também os dois pilares da opressão feminina.
Assim, hoje as bruxas são legião no século XX. E são bruxas que não podem ser queimadas vivas, pois são elas que estão trazendo pela primeira vez na história do patriarcado, para o mundo masculino, os valores femininos. Esta reinserção do feminino na história, resgatando o prazer, a solidariedade, a não-competição, a união com a natureza, talvez seja a única chance que a nossa espécie tenha de continuar viva. Quem serão agora as bruxas?